sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O anticorinthianismo na visão de um santista


O anticorinthianismo



"Nunca vi tanto vascaíno desde a chegada das caravelas do heroico português"


Por Xico Sá
São Paulo, sexta-feira, 02 de dezembro de 2011

Amigo torcedor, amigo secador, nunca se amou e se odiou tanto o Corinthians como nesta semana. Jamais o anticorintianismo, nem mesmo nas participações do time na Libertadores da América, foi tão extremado.
Tudo conspira contra o time do Parque São Jorge. Vi gente que não se interessa por futebol desde a Copa de 1950 tramando pelos botecos contra o Corinthians. Nunca a colônia portuguesa foi tão gigante e vascaína em todo país.
Mesmo sabendo que as condições históricas e objetivas estão dadas: o título do Nacional dificilmente escapará dos proletários da zona leste de São Paulo. A cidade está partida, e o anticorintianismo faz do corintiano mais fundamentalista.
O palmeirense pede a bola da honradez, estufa o peito e roga: se depender do Palestra os “gambás” conhecerão o mais dantesco dos infernos no próximo domingo.
Toda essa turma do contra faz o corintiano buscar mais passionalidade pelo time, cota de paixão roxa que julgava ser impossível. O corintiano foi buscar no miocárdio batimentos a mais para enfrentar a decisão de domingo. Acima do bem e do mal no seu poleiro metafísico, meu estimado corvo Edgar graceja: “Que vença, e não só nesta semana, o azarão completo”.Não é o caso agora. Não há zebras em jogo, advirto o lazarento. “Que triunfe, então, o inesperado”, diz o bicho, covarde e sem palpite.
Secador de nascença, gestado em um castelo mal-assombrado do amigo Roger Corman, o corvo não tem jeito. É mais um a incorporar o espírito do anticorintianismo que reina em SP agora.
A corrente do agouro está formada. Nunca vi tanto vascaíno desde a chegada das caravelas do heroico português.
A missão do secador, todavia, não é moleza. Além do Gigante da Colina ter que afogar o Flamengo, seu mais temível adversário, o Corinthians tem que perder o arrojo, sua marca no certame, no derradeiro confronto do ano.
A vida de um corintiano sempre esteve mais para o mata-mata, um desafio diário, um dragão por dia sob a espada de Jorge. Este foi o espírito alvinegro na mais punk jornada dos pontos corridos.
Resta agora ao amigo mosqueteiro amaciar o coração para o domingo, mandando uma do Cartola para afastar o agouro do anticorintianismo: “E com raiva para os céus/ Os braços levantei/ Blasfemei/ Hoje todos são contra mim”. Sim, deve haver o perdão, como reza o mesmo samba.


domingo, 6 de novembro de 2011

ERA OBVIO?


Impressões sobre O que você quer saber de verdade, de marisa Monte


Que Marisa Monte está entre as maiores intérpretes da música brasileira pós anos 1960-70 (leia-se pós Elis Regina) não é novidade. Marisa não caiu de paraquedas no meio musical, ela possui uma sólida formação: estudou canto lírico e "Bel canto", este na Itália - onde morou e cantou por algum tempo. Sua estréia nos palcos brasileiros causou muito alvoroço, e antes mesmo de gravar seu primeiro disco já era considerada uma grande cantora, tanto pelo público, quanto pela crítica. 
Já se passaram mais de 20 anos desde o lançamento de seu disco de estréia, o MM, de 1989. Neste intervalo, Marisa lançou relativamente poucos discos - foram apenas seis de estúdio e dois ao vivo, em mais de vinte anos de estrada -, entre eles alguns bons, vários excelentes e outros nem tanto. Isso por que, em meio às facilidades de produção, reprodução e circulação da música em nossos dias, Marisa Monte trabalha com discrição e seriedade em suas obras. O resultado disso são bons discos e, como consequência, o aumento da qualidade das músicas das paradas de sucesso. 
Sei que dizer essas coisas é chover no molhado, mas com isso podemos afirmar sem medo que Marisa Monte é uma grande artista, na melhor acepção do termo: produz arte séria e de qualidade.
     
No último dia do mês de outubro, numa segunda-feira (31), Marisa Monte lançou seu sexto disco de estúdio, O que você quer saber de verdade. Antes, a cantora já havia disponibilizado na internet um vídeo da música "Ainda bem", em que dança com o lutador Anderson Silva, fato que aumentou ainda mais o burburinho e a ansiedade em relação ao lançamento do disco. "Ainda bem" é uma bela música, ao melhor estilo Marisa Monte. 
O disco foi muito bem produzido e conta com a participação de gente de peso, como os instrumentistas Gustavo Santaolalla, o power trio da Nação Zumbi – Pupillo, Dengue e Lucio Maia –, os tecladistas americanos Thomas Bartlett, do Antony and the Johnsons, e Money Mark, dos Beastie Boys e, na execução de Lencinho querido, o Café de los maestros. Grande parte das canções são assinadas pela própria Marisa e seus companheiros de Tribalistas, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown - ora com um, ora com outro, ora com ambos. Com exceção de 'Descalço no parque', de Jorge Ben Jor, 'O que se quer', parceria entre ela e Rodrigo Amarante, 'Nada tudo', de André Carvalho, a já referida 'Lencinho Querido’, uma versão em portugês para 'El panuelito", de Frederico Esposito, e ‘Hoje eu não saio não', de Arnaldo Antunes, Marcelo Jeneci, Betão e Chico Salem.
Com a colaboração de gente desse calibre, não poderíamos esperar nada menos do que um disco excelente. Mas...
Ao ouvir o disco, a impressão geral que tive foi a de estar ouvindo a trilha sonora de alguma novela das 21h. Começando pela mediana ‘O que você quer saber de verdade’, que nomeia e abre o disco. A música não é ruim, mas é de uma obviedade absurda. Parece ter endereço certo: pessoas que acabaram de tomar um pé-na-bunda. Para alguns, a música fala do 'viver-a-vida'. Mas é quase impossível tratar esse tema, o viver a vida (que já foi até nome de novela), com alguma novidade, portanto é muito difícil não cair no mais do mesmo. Mesmo para alguém do porte de Marisa Monte: e ela caiu.
O tema que unifica o disco é ‘relacionamento’. E tem canção para todos os estágios: para quem está se conhecendo, para quem está em um relacionamento estável, para recém separados, para separados há algum tempo, etc... Por isso mesmo, como está sendo dito por aí, será a trilha sonora de muitos casais, tanto para os que iniciam quanto para os que terminam um relacionamento.

Mas será que isso é o suficiente para uma artista do tamanho de Marisa Monte?
     
          Me parece que Marisa Monte optou por não ousar; por fazer aquilo que com certeza daria certo; pelo caminho seguro. E o resultado foi um disco óbvio, sem novidades (e um tantinho sem graça). Fora que, em alguns momentos, a impressão que dá é que Marisa Monte forçou um pouco para soar "popular"
          Porém, neste disco temos a confirmação de que qualquer música - boa ou não - soa bem na voz de Marisa. Mas, cá entre nós, é bem melhor quando ela canta canções condizentes com a beleza de sua voz. Enfim, 'O que você quer saber de verdade' é um disco ruim, mas que tem algumas boas músicas. O que é muito pouco para alguém como Marisa Monte. 


PS. Acho que a parceria entre Marisa, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown já deu, esgotou-se. Para o bem da música brasileira, seria ótimo que ela procurasse novos parceiros e novas possibilidades.


          






quarta-feira, 2 de novembro de 2011

 

"Eu imaginei o barulho límpido de gotas de água caindo na água - só que esse mínimo e delicado ruído seria aumentado até além do som, em enormes gotas cristalinas com um badalar molhado de sinos que submergem. No ar gelado e atordoante as estátuas adormecidas."

Clarice Lispector - Um sopro de vida.