Numa manhã cinza de um domingo vazio, sem muito o que fazer. Ou melhor, sem muito ânimo para fazer alguma coisa, resolvi dar uma de Rob Gordon e transformar meu tédio - em poesia? não - em uma lista dos 5 mais. Neste caso, os cinco discos de 2012 que mais gostei.
Já que o mundo não acabou e estamos aqui sãos (?) e salvos, não custa nada, né não?
Os critérios? Não existem. É só uma lista pessoal dos discos que foram lançados este ano e que eu gostei e ouvi bastante. A ordem pode variar. E com certeza posso estar esquecendo de algum álbum muito legal, principalmente se foi lançado no já longínquo início de 2012. Mas talvez essa seja apenas a lista dos últimos 5 discos que ouvi. Ademais, ontem foi sábado...
Não, o assunto aqui não é Arthur
C. Clarke e seu maravilhoso livro O fim da infância. Tampouco algo relacionado ao universo da
ficção científica – pelo menos não necessariamente. O tema deste texto perpassa
questões como problemas edipianos, viagens lisérgicas,
psicoses, transgressões, buscas (do tempo perdido inclusive), Gaia,
completude, solitude, perda do lugar transcendental... O assunto é Syd Barrett, o gênio perturbado.
Durante muito tempo, sempre que
me perguntavam se eu gostava de Pink Floyd, eu respondia: “não, gosto de Syd
Barrett”. Para ser sincero nunca entendi bem a dimensão de tal resposta. Afinal, eu gostava de Pink Floyd, “Dark Side of The Moon” era (e é) um de meus
discos favoritos, mas me sentia tentado a dar tal resposta. Talvez pela
dimensão mítica que ele alcançou. Nunca encontrei alguém indiferente a ele – de
uma maneira ou de outra, todos se sentem atraídos por ele, por
seu encanto. Syd Barret se tornou
(quase) um consenso.
Simon Reynolds (crítico musical
inglês que acompanha de perto o desenvolvimento da música pop desde os anos 1980) publicou um texto, em 1995, chamado "O fim da infância", sobre o ressurgimento da psicodelia e de suas temáticas - nas raves e nas ideias das bandas de Shoegaze - na passagem dos anos 80 para os anos 90. Na primeira parte desse texto, ele aponta algumas das características fundamentais
da "primeira fase" do Pink Floyd: o que invariavelmente nos conduz ao universo surreal de Syd. Reproduzo aqui a parte do texto citada. Leitura bastante válida para os interessados em Pink Floyd e suas psicodelias.
[1] “O Pink Floyd foi um dos grupos que definiu a
psicodelia – tanto musical (com seu fluxo sonoro caleidoscópico) como
tematicamente (com sua obsessão pelo “fim da infância” e seu pastoralismo). O
cantor e líder original do Pink Floyd, Syd Barrett, foi uma figura-chave na
passagem dos vocalistas machões do R&B para as figuras andróginas à Peter
Pan da psicodelia. Barrett certamente se encaixa no perfil de filhinho da
mamãe. Seu pai morreu quando ele tinha 14 anos, e a partir daí ele desenvolveu
uma relação próxima com a mãe. (Convém lembrar que Roger Water, a outra
figura-chave do Pink Floyd, perdeu o pai pouco depois de nascer e também ficou
sob o poder de uma mãe controladora). Num tributo feito pela NME em 1974, Nick Kent especulou que a
instabilidade mental de Barrett estava relacionada a fatores edipianos
sinistros. Tomar quantidades descomunais de LSD lançou Barrett num colapso
psicótico; ele deixou o Floyd e voltou a morar com a mãe, para sempre...
Tudo isso pode explicar a
idealização da infância característica do Pink Floyd da era Barrett. Um de seus
singles, “See Emily Play” (1967), é uma visão casta e arrebatadora de flutuar
num rio para sempre; a entonação excêntrica, de rima infantil, é uma ruptura
surpreendente com a voz rouca e máscula do blues branco. O álbum de estreia, The Piper at the Gates of Dawn (1967),
pegou seu título do sétimo capitulo do clássico infantil O vento nos Salgueiros, [de Kenneth Grahame]. Em “Matilda Mother”,
Barrett é uma criança implorando para que a mãe leia mais um capítulo de seu
conto de fadas favorito na hora de dormir. A voz da mãe transforma as “linhas
rabiscadas” em mágica, destrancando a porta de um místico país das maravilhas
onde “tudo brilha”. Crianças ficam nostálgicas numa idade surpreendentemente
jovem: suas fantasias dos “dias de antigamente” escondem uma vontade de voltar
àquele fantástico não-lugar de onde todos fomos expulsos pelo princípio da
realidade. Assim, Barrett renuncia ao realismo e anseia por contos de fadas. Em
“Flaming”, faz o papel de um espírito ou ninfa do bosque, uma criatura
invisível, com poderes mágicos de teletransporte. No restante do álbum, há um
sonho de amor puro, não maculado pela sexualidade, como em “Bike”, onde
Barrett, com a generosidade ilimitada de uma criança, oferece a seu doce amor
“qualquer coisa, todas as coisas”, e faz amizade com um camundongo chamado
Gerald.
No segundo álbum, A Saucerful of Secret (1968), Barret já
estava praticamente fora do grupo, mas o Pink Floyd era ainda moldado por sua
visão. “Remenber a Day”, de Rick Wright, é pura saudade da paz entorpecida da
infância, com seu tranquilo espírito brincalhão. Em “See-saw” , irmão e irmã
divertem-se felizes, sem nenhuma preocupação ou pensamento no amanhã. Syd
Barrett seguiu nesse veio entre o piegas e o psicótico, o sentimentalóide e o
doentio, por toda a sua errática carreira solo. Seus álbuns de 1970, The Madcap Laughs e Barret, são cheios de canções de amor infantis e castas, cheias de
mel, creme de leite e “Baby Lemonade”; o amor aqui está mais próximo da
fantasia infantil de ser dono de uma loja de doces do que do aspecto carnal do
desejo adulto.
Sem Barrett, o Pink Floyd rumou
em direção a uma serenidade desprovida de problemas. O controlador Roger Waters
mudou a orientação da banda, conduzindo-a da serenidade dionisíaca de barrett
rumo a uma placidez apolínea (todas aquelas músicas com complexo de Ícaro, como
“Set the Controls for the Heart of the Sun” e “Let There Be More Light”). Antes
um fluxo caótico, o som do Pink Floyd agora estava mais próximo de uma
catedral: algo que inspira reverencia, mas de forma ordeira. A nostalgia,
porém, ainda era a emoção dominante. Em Ummagumma (1969), “Grantchester
Meadows” retorna ao infinito oásis da infância. Os vocais pálidos e cuidadosos
de Waters e uma guitarra acústica sinuosa se misturam ao som de cotovias
cantando, patos fazendo barulho na água e o zumbido de abelhas. Ele está na
cidade, mas está se “aconchegando” na memória daquela “tarde passada”, quando deitou
no pasto quentinho, ao lado de um rio.
Os
temas pastorais do Pink Floyd desabrocham em Atom Heart Mother (1970), com a famosa capa onde uma vaca pasta
placidamente. O título saiu de uma manchete de jornal sobre uma mãe grávida a
quem dado um marca-passo movido à energia atômica; o baterista Nick Mason
explicou que a capa explorava a conexão “entre a vaca e... a mãe-Terra, o
coração da Terra”. O álbum em si seguia esse simbolismo bem pomposo: todo o
primeiro lado era ocupado por “Atom Heart Mother Suite”, uma espécie de
sinfonia de regressão cósmica. “Fat Old Sun” é pura indolência opulenta cozida
pelo sol, com tons sépia de arrependimento, enquanto a tarde de verão dá lugar
ao anoitecer; as letras evocam o cheiro da grama, sinos de igreja badalando ao longe,
o riso de crianças flutuando na brisa”.
- [1]Trecho extraído do livro "Beijar o céu", coletânea de textos de Simon Reynolds publicado pela Conrad.
Não faz duas décadas e a Libertadores foram
estigmatizando como sendo algo necessário.
O CORINTHIANS, Campeão Sul-Americano de Bola ao
Cesto, Campeão Mundial de Remo, medalhista internacional e Campeão da Taça
Brasil de Natação, Campeão Brasileiro de Futebol de Salão, de Futebol de Botão
(até isso!), de Handebol, Campeão na Peteca, Campeão Paulista de Tênis (em cima
das dondocas madames do paulistano...), talvez tenha demorado um tanto pra
conquistar mais essa Taça.
Para Libertar essa Taça do jugo escroque da
anticorintianada.
Grande parte de nossas vidas ouvimos dessa gente sem
alma que "nunca veríamos Libertadores". Que nunca
"seríamos".
Ah, o abismo entre SER e TER...
Ter é muito fácil. Na noite de ontem, sob a luz da Lua Cheia de São
Jorge (que preparou aquela Lua durante toda a semana, quem viu, viu!), acabamos
por "ter" mais essa Taça.
Que o CORINTHIANS fez grandiosa, de forma invicta, sob as Bênçãos dos Ancestrais
que Revolucionaram o Futebol no dia 30 de março de 1913, e foram ser Campeões
Invictos em 1914.
A questão que sempre trouxemos à tona neste blogue, sempre foi outra: SER.
Quinquilharias não nos enternecem, como fazem à anticorintianada pobre-diabo.
Aqui no CORINTHIANS a coisa é outra. SER CORINTHIANS é levar adiante, na
Alma Guarnecida para a Guerra do Mundo, toda a História de Luta de nosso Povo.
Construída com sangue, suor e lágrimas. Muitas lágrimas. Muito sangue.
Muito suor.
Ser, de verdade verdadeira e com Alma, é algo difícil para quem é
rancoroso e recalcado; e o que é a anticorintianada, senão um bando de carcaça
sem alma, ao sabor dos ventos (leia-se: ao sabor do próximo adversário do CORINTHIANS)?
Pois bem; ontem a tal "piada" morreu. A anticorintianada continuará, cada vez mais putrefata, tentando achar
um lugar nesse mundo (e fatalmente, nunca encontrando...).
O lugar do CORINTHIANS sempre esteve aqui, por SÃO JORGE.
Pois o CORINTHIANS sempre levou a sua Existência adiante, na luta
diária, matando um dragão a cada dia.
E é só isso que sempre importará de verdade.
Vencemos mais uma batalha, Companhia de Jorge!
Parabéns, Família Corinthiana!
Obrigado, Santo Guerreiro Padroeiro, pela noite de Luta e Lua Cheia, por
escrever de maneira tão grandiosa mais esta História dentro dessa Gigantesca
História chamada CORINTHIANS!
Huxley temia que não houvesse razão para banir livros, por que ninguém mais se interessaria em ler algum.
Orwell temia a censura das informações.
Huxley temia que nos oferecessem tanta informação que seriamos reduzidos à passividade e ao egoísmo.
Orwell temia que a verdade fosse ocultada de nós.
Huxley temia que a verdade fosse soterrada em um mar de irrelevância.
Orwell temia que nós nos tornassemos uma cultura oprimida (capturada).
Huxley temia que nos tornassemos uma cultura irrelevante, trivial, preocupada com “some equivalent of the feelies, the orgy porgy, and the centrifugal bumblepuppy”.
Em 1984, as pessoas eram controladas pela dor.
Em Admirável Mundo Novo, elas eram controladas por prazer.
Sobre o rebaixamento da literatura e de escritores nas redes sociais
por Maykon Souza
No Shopping, puxei o livro da mochila e percebi que estava sendo observado. Mal virei a primeira página e ela se aproximou. Devia ter uns 20 anos. Ficou se contorcendo, tentando ler o nome que estava na capa. Conseguiu:
– Ai, que legal...
– O quê?
– Ele tem livro?
– Como assim?
– O Caio tem livro...
– Que Caio?
– Esse que você tá lendo...
– Tem... vários... um dos maiores escritores do Brasil...
Ela não acreditou muito.
– Caramba... achei que ele era só o cara do Face.
– Cara do...?
– Face... Facebook... internet... cê tem, né?!
– Tenho, tenho...
– Ele também.
– Quem?
– O Caio... tem um perfil todo fofo... Ele escreve cada coisa bonita.
– O Caio?
– Claro, pô. Não é dele que a gente está falando?!
– É que é impossível ele ter perfil.
– Por quê?
– Ele morreu...
– Impossível ele ter morrido!
Chegamos num impasse. Ela virou para o outro lado, como que digerindo a informação. Depois de um tempo, indignada:
– E quem atualiza o perfil dele, então?
– Ele é que não é.
– Cê ta brincando... não deve ser o mesmo... morreu de quê?
– Aids.
– Aids??? Então, ele era velhão?
– Velhão?
– É, ué! Aids não é aquele negócio que dava nos anos 80?
Novamente, um impasse. Dessa vez, eu é que virei para o outro lado para digerir a informação.
– Lê um pedaço aí pra mim.
– Qualquer um?
– É.
– Lá vai: “Aquele negrão, sabe aquele negrão de cabelo rastafári que fica sempre ali no Quênia’s Bar? Aquele que vende fumo, diz que tem vinte e cinco centímetros, já pensou? Isso não é uma jeba, é uma jiboia. Até vinte aguento numa boa, até o cabo. Vinte e cinco não sei, tenho até medo. Pode rasgar a gente por dentro, sei lá”*.
– Ele escreveu isso?
– Sim.
– O Caio?
– Claro, pô. Não é dele que a gente está falando?!
Ela se levantou, indignada:
– Ele escreve coisas fofas, não isso aí. Ele fala de amor, esperança, sorriso. Coisas pra valorizar a gente. Ele tem frases que se encaixam em todos os momentos da vida da gente.
– Isso é Minutos de Sabedoria, não Caio Fernando Abreu.
– Minutos de quê?
Reparei que outra garota tinha se aproximado. Resolveu entrar na conversa:
– Que foi?
– O cara aí tá dizendo que conhece o Caio.
– Que Caio?
– O do Face!
– Ah, tá... prefiro a Clarissa...
– Que Clarissa?
– Ah, sei lá. Acho que é Espectro.
– Não é Clarissa, é Clarice, sua burra!
Começaram a tirar sarro uma da outra e se foram sem dar tchau.
Da próxima vez que estiver em público, puxo um Dostoiévski. Duvido que ele também tenha perfil fofo no Face.
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*O trecho foi extraído de uma frase da personagem Jacyr, do livro Onde Andará Dulce Veiga?, publicado em 1990
entre: entre outrens neste ventre de carne e metal onde o entra-e-sai de cada dia insinua um nascer além do sol, além do sal que sai da fronte do ente entre outrens.
os olhos translúcidos (cortados pelos raios de um sol calmo) reverberam ideias invisíveis, insolúveis, insolentes: INSURGENTES entre outrens no limiar do pensamento sempre o fim da linha, o fim do dia expelido para o mundo, o ente deambula seus caminhos e agruras. já não importa o ponto que ocupa no espaço e no tempo: o fim e o começo são momentos da mesma tessitura que o leva sempre adentro do ventre entre outrens: entre
(dezembro, 2011)
FOTO: Sueliton Lima
- Texto escrito para a exposição Foto Falada - projeto idealizado pelo fotógrafo Sueliton Lima e o professor, poeta e ativista cultural Thiago Lima -, realizada no Galpão-Studio em 2012.