domingo, 23 de dezembro de 2012

BRINCANDO DE ROB GORDON



Numa manhã cinza de um domingo vazio, sem muito o que fazer. Ou melhor, sem muito ânimo para fazer alguma coisa, resolvi dar uma de Rob Gordon e transformar meu tédio - em poesia? não - em uma lista dos 5 mais. Neste caso, os cinco discos de 2012 que mais gostei.

Já que o mundo não acabou e estamos aqui sãos (?) e salvos, não custa nada, né não?

Os critérios? Não existem. É só uma lista pessoal dos discos que foram lançados este ano e que eu gostei e ouvi bastante. A ordem pode variar. E com certeza posso estar esquecendo de algum álbum muito legal, principalmente se foi lançado no já longínquo início de 2012. Mas talvez essa seja apenas a lista dos últimos 5 discos que ouvi. Ademais, ontem foi sábado...



1. Shields - Grizzly Bear

Ouça aqui: http://migre.me/cvTgi





















2. Céu - Caravana Sereia Bloom

Ouça aqui: http://migre.me/cvTjl




















3. Curumim - Arrocha

Ouça aqui: http://migre.me/cvTdU






















4. Beach House - Bloom

Ouça aqui: http://migre.me/cvT7y





















5. The XX - Coexist

Ouça aqui: http://migre.me/cvTbL



sábado, 24 de novembro de 2012

O FIM DA INFÂNCIA





Não, o assunto aqui não é Arthur C. Clarke e seu maravilhoso livro O fim da infância. Tampouco algo relacionado ao universo da ficção científica – pelo menos não necessariamente. O tema deste texto perpassa questões como problemas edipianos, viagens lisérgicas, psicoses, transgressões, buscas (do tempo perdido inclusive), Gaia, completude, solitude, perda do lugar transcendental... O assunto é Syd Barrett, o gênio perturbado.

Durante muito tempo, sempre que me perguntavam se eu gostava de Pink Floyd, eu respondia: “não, gosto de Syd Barrett”. Para ser sincero nunca entendi bem a dimensão de tal resposta. Afinal, eu gostava de Pink Floyd, “Dark Side of The Moon” era (e é) um de meus discos favoritos, mas me sentia tentado a dar tal resposta. Talvez pela dimensão mítica que ele alcançou. Nunca encontrei alguém indiferente a ele – de uma maneira ou de outra, todos se sentem atraídos por ele, por seu encanto. Syd Barret se tornou (quase) um consenso.

Simon Reynolds (crítico musical inglês que acompanha de perto o desenvolvimento da música pop desde os anos 1980) publicou um texto, em 1995, chamado "O fim da infância", sobre o ressurgimento da psicodelia e de suas temáticas - nas raves e nas ideias das bandas de Shoegaze - na passagem dos anos 80 para os anos 90. Na primeira parte desse texto, ele aponta algumas das características fundamentais da "primeira fase" do Pink Floyd: o que invariavelmente nos conduz ao universo surreal de Syd. 

Reproduzo aqui a parte do texto citada. Leitura bastante válida para os interessados em Pink Floyd e suas psicodelias. 


 [1] “O Pink Floyd foi um dos grupos que definiu a psicodelia – tanto musical (com seu fluxo sonoro caleidoscópico) como tematicamente (com sua obsessão pelo “fim da infância” e seu pastoralismo). O cantor e líder original do Pink Floyd, Syd Barrett, foi uma figura-chave na passagem dos vocalistas machões do R&B para as figuras andróginas à Peter Pan da psicodelia. Barrett certamente se encaixa no perfil de filhinho da mamãe. Seu pai morreu quando ele tinha 14 anos, e a partir daí ele desenvolveu uma relação próxima com a mãe. (Convém lembrar que Roger Water, a outra figura-chave do Pink Floyd, perdeu o pai pouco depois de nascer e também ficou sob o poder de uma mãe controladora). Num tributo feito pela NME em 1974, Nick Kent especulou que a instabilidade mental de Barrett estava relacionada a fatores edipianos sinistros. Tomar quantidades descomunais de LSD lançou Barrett num colapso psicótico; ele deixou o Floyd e voltou a morar com a mãe, para sempre...

Tudo isso pode explicar a idealização da infância característica do Pink Floyd da era Barrett. Um de seus singles, “See Emily Play” (1967), é uma visão casta e arrebatadora de flutuar num rio para sempre; a entonação excêntrica, de rima infantil, é uma ruptura surpreendente com a voz rouca e máscula do blues branco. O álbum de estreia, The Piper at the Gates of Dawn (1967), pegou seu título do sétimo capitulo do clássico infantil O vento nos Salgueiros, [de Kenneth Grahame]. Em “Matilda Mother”, Barrett é uma criança implorando para que a mãe leia mais um capítulo de seu conto de fadas favorito na hora de dormir. A voz da mãe transforma as “linhas rabiscadas” em mágica, destrancando a porta de um místico país das maravilhas onde “tudo brilha”. Crianças ficam nostálgicas numa idade surpreendentemente jovem: suas fantasias dos “dias de antigamente” escondem uma vontade de voltar àquele fantástico não-lugar de onde todos fomos expulsos pelo princípio da realidade. Assim, Barrett renuncia ao realismo e anseia por contos de fadas. Em “Flaming”, faz o papel de um espírito ou ninfa do bosque, uma criatura invisível, com poderes mágicos de teletransporte. No restante do álbum, há um sonho de amor puro, não maculado pela sexualidade, como em “Bike”, onde Barrett, com a generosidade ilimitada de uma criança, oferece a seu doce amor “qualquer coisa, todas as coisas”, e faz amizade com um camundongo chamado Gerald.



No segundo álbum, A Saucerful of Secret (1968), Barret já estava praticamente fora do grupo, mas o Pink Floyd era ainda moldado por sua visão. “Remenber a Day”, de Rick Wright, é pura saudade da paz entorpecida da infância, com seu tranquilo espírito brincalhão. Em “See-saw” , irmão e irmã divertem-se felizes, sem nenhuma preocupação ou pensamento no amanhã. Syd Barrett seguiu nesse veio entre o piegas e o psicótico, o sentimentalóide e o doentio, por toda a sua errática carreira solo. Seus álbuns de 1970, The Madcap Laughs e Barret, são cheios de canções de amor infantis e castas, cheias de mel, creme de leite e “Baby Lemonade”; o amor aqui está mais próximo da fantasia infantil de ser dono de uma loja de doces do que do aspecto carnal do desejo adulto.

Sem Barrett, o Pink Floyd rumou em direção a uma serenidade desprovida de problemas. O controlador Roger Waters mudou a orientação da banda, conduzindo-a da serenidade dionisíaca de barrett rumo a uma placidez apolínea (todas aquelas músicas com complexo de Ícaro, como “Set the Controls for the Heart of the Sun” e “Let There Be More Light”). Antes um fluxo caótico, o som do Pink Floyd agora estava mais próximo de uma catedral: algo que inspira reverencia, mas de forma ordeira. A nostalgia, porém, ainda era a emoção dominante. Em Ummagumma (1969), “Grantchester Meadows” retorna ao infinito oásis da infância. Os vocais pálidos e cuidadosos de Waters e uma guitarra acústica sinuosa se misturam ao som de cotovias cantando, patos fazendo barulho na água e o zumbido de abelhas. Ele está na cidade, mas está se “aconchegando” na memória daquela “tarde passada”, quando deitou no pasto quentinho, ao lado de um rio.

Os temas pastorais do Pink Floyd desabrocham em Atom Heart Mother (1970), com a famosa capa onde uma vaca pasta placidamente. O título saiu de uma manchete de jornal sobre uma mãe grávida a quem dado um marca-passo movido à energia atômica; o baterista Nick Mason explicou que a capa explorava a conexão “entre a vaca e... a mãe-Terra, o coração da Terra”. O álbum em si seguia esse simbolismo bem pomposo: todo o primeiro lado era ocupado por “Atom Heart Mother Suite”, uma espécie de sinfonia de regressão cósmica. “Fat Old Sun” é pura indolência opulenta cozida pelo sol, com tons sépia de arrependimento, enquanto a tarde de verão dá lugar ao anoitecer; as letras evocam o cheiro da grama, sinos de igreja badalando ao longe, o riso de crianças flutuando na brisa”.




- [1]Trecho extraído do livro "Beijar o céu", coletânea de textos de Simon Reynolds publicado pela Conrad.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

sexta-feira, 6 de julho de 2012

AH, CORINTHIANS

Por Felipe Gonçalves

Não faz duas décadas e a Libertadores foram estigmatizando como sendo algo necessário.
O CORINTHIANS, Campeão Sul-Americano de Bola ao Cesto, Campeão Mundial de Remo, medalhista internacional e Campeão da Taça Brasil de Natação, Campeão Brasileiro de Futebol de Salão, de Futebol de Botão (até isso!), de Handebol, Campeão na Peteca, Campeão Paulista de Tênis (em cima das dondocas madames do paulistano...), talvez tenha demorado um tanto pra conquistar mais essa Taça.
Para Libertar essa Taça do jugo escroque da anticorintianada.
Grande parte de nossas vidas ouvimos dessa gente sem alma que "nunca veríamos   Libertadores". Que nunca "seríamos".
Ah, o abismo entre SER e TER...
Ter é muito fácil. Na noite de ontem, sob a luz da Lua Cheia de São Jorge (que preparou aquela Lua durante toda a semana, quem viu, viu!), acabamos por "ter" mais essa Taça.
Que o CORINTHIANS fez grandiosa, de forma invicta, sob as Bênçãos dos Ancestrais que Revolucionaram o Futebol no dia 30 de março de 1913, e foram ser Campeões Invictos em 1914.
A questão que sempre trouxemos à tona neste blogue, sempre foi outra: SER.
Quinquilharias não nos enternecem, como fazem à anticorintianada pobre-diabo.
Aqui no CORINTHIANS a coisa é outra. SER CORINTHIANS é levar adiante, na Alma Guarnecida para a Guerra do Mundo, toda a História de Luta de nosso Povo.
Construída com sangue, suor e lágrimas. Muitas lágrimas. Muito sangue. Muito suor.
Ser, de verdade verdadeira e com Alma, é algo difícil para quem é rancoroso e recalcado; e o que é a anticorintianada, senão um bando de carcaça sem alma, ao sabor dos ventos (leia-se: ao sabor do próximo adversário do CORINTHIANS)?
Pois bem; ontem a tal "piada" morreu. A anticorintianada continuará, cada vez mais putrefata, tentando achar um lugar nesse mundo (e fatalmente, nunca encontrando...).
O lugar do CORINTHIANS sempre esteve aqui, por SÃO JORGE.
Pois o CORINTHIANS sempre levou a sua Existência adiante, na luta diária, matando um dragão a cada dia.
E é só isso que sempre importará de verdade.
Vencemos mais uma batalha, Companhia de Jorge!
Parabéns, Família Corinthiana!
Obrigado, Santo Guerreiro Padroeiro, pela noite de Luta e Lua Cheia, por escrever de maneira tão grandiosa mais esta História dentro dessa Gigantesca História chamada CORINTHIANS!


VIVA O CORINTHIANS NOSSO DE CADA DIA!!!






Publicado originalmente no blog http://anarcorinthians.blogspot.com.br

terça-feira, 29 de maio de 2012

Ana C. + Sigur Ros

                   
               Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos
                                                                                          vazios.

               (Ana C.)

                         



domingo, 27 de maio de 2012

ORWELL & HUXLEY



Por Lívio Nakano

George Orwell escreveu 1984. 
Aldous Huxley escreveu Admirável Mundo Novo.

Orwell temia aqueles que banem os livros.
Huxley temia que não houvesse razão para banir livros, por que ninguém mais se interessaria em ler algum.

Orwell temia a censura das informações.
Huxley temia que nos oferecessem tanta informação que seriamos reduzidos à passividade e ao egoísmo.

Orwell temia que a verdade fosse ocultada de nós.
Huxley temia que a verdade fosse soterrada em um mar de irrelevância.

Orwell temia que nós nos tornassemos uma cultura oprimida (capturada).
Huxley temia que nos tornassemos uma cultura irrelevante, trivial, preocupada com “some equivalent of the feelies, the orgy porgy, and the centrifugal bumblepuppy”.

Em 1984, as pessoas eram controladas pela dor.
Em Admirável Mundo Novo, elas eram controladas por prazer.

No final, Orwell temia que o medo nos arruinasse.
E Huxley temia que o desejo nos arruinasse.


terça-feira, 22 de maio de 2012

A SERPENTE E O TEMPO



se arrasta a serpente
e o tempo bate

pensar de repente
a vida em slide


no sopro do vento
seu rastro é miragem

quebrar a corrente
do tempo covarde

a vida: um minuto,
um segundo, um insight



(2008)



POEMA RASGADO




(2006)

terça-feira, 6 de março de 2012

CAIO FERNANDO ABREU OU O CARA DO FACE



Sobre o rebaixamento da literatura e de escritores nas redes sociais


por Maykon Souza 

No Shopping, puxei o livro da mochila e percebi que estava sendo observado. Mal virei a primeira página e ela se aproximou. Devia ter uns 20 anos. Ficou se contorcendo, tentando ler o nome que estava na capa. Conseguiu:
– Ai, que legal...
– O quê?
– Ele tem livro?
– Como assim?
– O Caio tem livro...
– Que Caio?
– Esse que você tá lendo...
– Tem... vários... um dos maiores escritores do Brasil...
Ela não acreditou muito.
– Caramba... achei que ele era só o cara do Face.
– Cara do...?
– Face... Facebook... internet... cê tem, né?!
– Tenho, tenho...
– Ele também.
– Quem?
– O Caio... tem um perfil todo fofo... Ele escreve cada coisa bonita.
– O Caio?
– Claro, pô. Não é dele que a gente está falando?!
– É que é impossível ele ter perfil.
– Por quê?
– Ele morreu...
– Impossível ele ter morrido!
Chegamos num impasse. Ela virou para o outro lado, como que digerindo a informação. Depois de um tempo, indignada:
– E quem atualiza o perfil dele, então?
– Ele é que não é.
– Cê ta brincando... não deve ser o mesmo... morreu de quê?
– Aids.
– Aids??? Então, ele era velhão?
– Velhão?
– É, ué! Aids não é aquele negócio que dava nos anos 80?
Novamente, um impasse. Dessa vez, eu é que virei para o outro lado para digerir a informação.
– Lê um pedaço aí pra mim.
– Qualquer um?
– É.
– Lá vai: “Aquele negrão, sabe aquele negrão de cabelo rastafári que fica sempre ali no Quênia’s Bar? Aquele que vende fumo, diz que tem vinte e cinco centímetros, já pensou? Isso não é uma jeba, é uma jiboia. Até vinte aguento numa boa, até o cabo. Vinte e cinco não sei, tenho até medo. Pode rasgar a gente por dentro, sei lá”*.
– Ele escreveu isso?
– Sim.
– O Caio?
– Claro, pô. Não é dele que a gente está falando?!
Ela se levantou, indignada:
– Ele escreve coisas fofas, não isso aí. Ele fala de amor, esperança, sorriso. Coisas pra valorizar a gente. Ele tem frases que se encaixam em todos os momentos da vida da gente.
– Isso é Minutos de Sabedoria, não Caio Fernando Abreu.
– Minutos de quê?
Reparei que outra garota tinha se aproximado. Resolveu entrar na conversa:
– Que foi?
– O cara aí tá dizendo que conhece o Caio.
– Que Caio?
– O do Face!
– Ah, tá... prefiro a Clarissa...
– Que Clarissa?
– Ah, sei lá. Acho que é Espectro.
– Não é Clarissa, é Clarice, sua burra!
Começaram a tirar sarro uma da outra e se foram sem dar tchau.
Da próxima vez que estiver em público, puxo um Dostoiévski. Duvido que ele também tenha perfil fofo no Face.
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*O trecho foi extraído de uma frase da personagem Jacyr, do livro Onde Andará Dulce Veiga?, publicado em 1990

- Esta crônica de Maykon Souza está disponível em - http://bit.ly/zaVUIb

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

ENTRE



entre:
entre outrens
neste ventre
de carne e metal

onde o entra-e-sai de cada dia
insinua um nascer além do sol,
além do sal que sai da fronte do ente
entre outrens.

os olhos translúcidos
(cortados pelos raios de um sol calmo)
reverberam ideias 
invisíveis, 
                                           insolúveis,
                                                           insolentes:
INSURGENTES

entre outrens

no limiar do pensamento
sempre o fim da linha,
o fim do dia


expelido para o mundo,
o ente deambula seus caminhos e agruras.
já não importa o ponto que ocupa no espaço e no tempo:

o fim e o começo são momentos
da mesma tessitura
que o leva sempre adentro do ventre
entre outrens:
entre



(dezembro, 2011)




FOTO: Sueliton Lima





Texto escrito para a exposição Foto Falada - projeto idealizado pelo fotógrafo Sueliton Lima e o professor, poeta e ativista cultural Thiago Lima -, realizada no Galpão-Studio em 2012.