sábado, 16 de novembro de 2013

O ALBATROZ E OS DIAS




a poeira dos dias 
transforma em pó e ira
a poesia

e ao poeta resta
a espera da alba: 
atroz aporia

(2012)

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

TEUS OLHOS



para  Mayara Oliveira
ao som de Glósóli - Sigur Rós


olhos musicais

olhos atemporais:
etéreos

pequeno mar de translúcidos espelhos

glaciais:
arranham-me os ossos;
congelam-me as artérias,
e o sangue se debate lento
na vontade de continuar correndo

o tempo se distrai
se desfaz

as dimensões se misturam
em um lugar de gravidade zero

o corpo flutuante -
que já nem sei se é meu -
tenta segurar as cores
que explodem na palma das mãos
e se transformam em luz:
ofuscante clarão
num universo escuro

seus olhos:
múltiplos em seus quereres,
em seus poderes
                         
poesia imediata,
inexata

impossível.



(agosto, 2013)



quarta-feira, 14 de agosto de 2013

LIMEN




na noite, a cidade acorda:

a quietude desperta
o que o dia dispersa.
o invisível vem à luz
da noite, que o conduz
a caminhos controversos.

na noite, a cidade é outra:

a pedra estilhaça os espelhos
e Narciso se perde entre os cacos:
caleidoscópio de dejetos indesejáveis.

sob a cidade há outra cidade:
fúria de águas represadas
rompendo dutos subterrâneos -
subversão das faces contra as botas.

na noite, a cidade é pó,
é pau, é pedra
quebrando a pétrea rotina
irregular e nada retilínea;
não reprime o que é,
nem o que pode ser.

o asco, o nojo e o lixo
se entrelaçam no abismo
com o sublime

o impossível não existe
na noite
da cidade.


(agosto, 2013)


(Metamorfose de Narciso - Salvador Dali, 1937)




DAS PONTES ENTRE MUNDOS



A LIRA DE ARCOVERDE

[O discoLira  é só uma pequena parte na trajetória do Trovador pernambucano, que entre pouquíssimos no mundo moderno, tem a credencial para assim ser designado.  Lirinha é um desses emissários raros, um contador de histórias e estórias deste e de outros mundos, só possíveis de serem por nós acessados, graças a sua nobre função natural para bardo.
Lira é só uma pequena parte na trajetória de Lirinha. Mas é uma pequena grande parte! Lira é um convite ao lúdico e ao empírico, ao cósmico e ao telúrico, mas principalmente ao lirismo psicodélico. Ouvir o disco é como estar num sonho cheio de simbolismos, daqueles que nos deixam intrigados e perplexos e nos fazem passar o resto do dia atordoados, tentando decifra-los enquanto aguardamos a chegada da nova madrugada esperando que se repitam.
Dissecando Lira
Letras-poemas forjadas a pedras e flores. Nuvens, homículos, damas e valetes, vagalumes e elefantes invisíveis, soldados, flechas, bêbados, névoa, química, hindus, gregos e Buda. Lirinha continua sendo um cordelista!
O som se distancia da proposta caótica do ‘Cordel do Fogo Encantado’, desnudando outras faces do músico. É uma viagem sonora psicodélica experimental, construída com luxuosas participações como Luisa Maita, Pupillo, Junio Barreto, Otto, Ângela RoRo e mais uma plêiade de músicos fodásticos.
Se você era muito fã do Cordel e ainda está preso num sentimento saudosista, desapega!
Lira transcende as expectativas, e a verdade nua e crua é que não tem como não se render e não se deixar arrebatar pelo mundo onírico e sempre encantado de Lirinha.
A imaginação de Lirinha continua em intensa combustão. Tem muita vida, muito fogo pra queimar!
Vida longa ao Rei Trovador de Arcoverde!


- Texto extraído do site 'Jardim da MPB': http://bit.ly/16QCyZH

sexta-feira, 19 de abril de 2013

K. DICK DISSE



"Às vezes, uma reação adequada à realidade é enlouquecer".

- Philip K. Dick



DA BELEZA E SUAS FORMAS



eu estive com a beleza
sem médias, sem rédeas
em si e só:
beleza desnuda

despidos numa manhã caótica,
nossos corpos se equilibravam
num movimento sincrônico -
irônico encontro de almas

contrastando com o cinza d'aurora,
a brancura da pele que agora
me encobria com sua luz sutil:
alumbramento!

o som suave do vinil
entrava pelas frestas,
pelos poros, pelos olhos,
que já não viam

enternecidos,
involuntários e convulsivos,
sentíamos o ritmo
da pura sensação de ser,
do ser que não espera,
do corpo que traz na pele
o gosto de flores da primavera


(abril, 2013)



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Para ouvir com fones de ouvido




Amok, o disco de "estréia" do Atoms for Peace, foi liberado em streaming. Um bom fone de ouvido é indispensável para aproveitar todas as nuances desse - como não poderia ser diferente - belíssimo trabalho.

2013 começou a todo vapor. Espero que continue assim.


Ouça agora: Amok - Atoms for Peace


domingo, 17 de fevereiro de 2013

MOVIMENTOS



ao som de Cio da terra - Milton Nascimento

I

sigo
mesmo que a seco
a contragosto
a contrapelo
mesmo que a esmo
sigo

II

sigo por aí
sem seguir e sem guiar
estar aqui ou lá
é um transe
instante
por um triz

III

forjar a vida 
em cada passo
em cada ato

nas mãos
o milagre do pão 
e um mundo a ser feito no braço


(outubro, 2012)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

ISSO NÃO FAZ DIFERENÇA





Na saída do cinema, sem ter um porquê, começaram a conversar. Talvez seja pelo fato de ambos estarem com cara de tédio depois de um filme tão comentado e tão pouco interessante... Acontece.

Quando perceberam, estavam sentados na mesa de um bar, já rodeados por algumas garrafas de cerveja. Pode ser que só tenham percebido isto porque naquele momento a conversa estava em hiato.

No mesmo instante, o rádio do boteco começou a tocar Cara estranho, do Los Hermanos. Como que por impulso ele retomou o diálogo:

- Você gosta de Los Hermanos?!

- Não.

- Por quê?!

- Isso não faz diferença. E você?

- Eu? Acabo de me apaixonar.

- Pelo Los Hermanos?

- Não.

Olhares oblíquos...

Ela prossegue:

- Mas e você, gosta de Los Hermanos?

- Isso não faz diferença.



(dezembro, 2012)







sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

AOS MEUS AMIGOS





I


"[Ao homem] cabe-lhe uma grande modéstia: sabe quais as mulheres que teve, em que aventuras risíveis se meteu; a sua riqueza ou a sua pobreza não lhe servem de nada, nesse aspecto ele continua a ser a criança que acaba de nascer e, quanto à aprovação da sua consciência moral, admito que passe sem ela facilmente. Se conservar alguma lucidez, apenas pode virar-se então para sua infância que, por muito trucidada que tenha sido pela solicitude dos domadores, nem por isso lhe parece menos cheia de encantos. Nela, a ausência de qualquer rigor conhecido deixa-lhe a perspectiva de várias vidas vividas ao mesmo tempo (...).

Mas se na verdade não se pode ir tão longe, não é apenas por causa da distância.

(...)

Querida imaginação, o que eu amo em ti acima de tudo é que não perdoas." 


(André Breton - Manifesto do Surrealismo, 1924)






II



A CASA VAZIA OU JARDIM DA INFÂNCIA



na casa vazia,

saciados sejam os desejos da infância

jardins suspensos

florescem no vento

sonhos dispersos
se tocam no tempo

e assim,
nesse exato momento,
façamos caminhos inversos

nos versos
 de Milton,
refazer a estrada

na voz da Fazenda, 
refazer a memória apagada
pelo pó do tempo
e o nada

no viver intenso,
vou ver o que foi
e ainda é

na normalidade do esquecer,

beber sem pensar
até a última gota

quando foi que esse Carro de Boi nos trouxe aqui?


eu que nunca quis partir
de lá, nunca vi o amanhã:
instante já, 
estrada sem volta

à flor da pele explode um grito:

a estrada é nunca mais
e o menino nunca morre!



(poema feito sobre o Lado A de Geraes, de Milton Nascimento. dezembro de 2012)





segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Daquele instante em diante

     





Daquele instante em diante é um documentário de Rogério Velloso sobre Itamar Assumpção, da série Iconoclássicos. Iconoclássicos foi um projeto do Itaú Cultural para a produção de uma série de filmes sobre artistas brasileiros contemporâneos. Além de Daquele Instante, foram feitos também Ex-isto, baseado na obra Catatau, de Paulo Leminski, EVOÉ! Retrato de um Antropófago, sobre Zé Celso Martinez Correa, Assim é, se lhe parece, sobre o artista plástico Nelson Leirner, e Mr. Sganzerla - Os signos da luz, sobre o cineasta Rogério Sganzerla.




Daquele instante em diante foi disponibilizado oficialmente para download gratuito no Vimeo.

Para ver e baixar. Ao contrário ou vice-versa - como queira. Vale muito a pena.