sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

AOS MEUS AMIGOS





I


"[Ao homem] cabe-lhe uma grande modéstia: sabe quais as mulheres que teve, em que aventuras risíveis se meteu; a sua riqueza ou a sua pobreza não lhe servem de nada, nesse aspecto ele continua a ser a criança que acaba de nascer e, quanto à aprovação da sua consciência moral, admito que passe sem ela facilmente. Se conservar alguma lucidez, apenas pode virar-se então para sua infância que, por muito trucidada que tenha sido pela solicitude dos domadores, nem por isso lhe parece menos cheia de encantos. Nela, a ausência de qualquer rigor conhecido deixa-lhe a perspectiva de várias vidas vividas ao mesmo tempo (...).

Mas se na verdade não se pode ir tão longe, não é apenas por causa da distância.

(...)

Querida imaginação, o que eu amo em ti acima de tudo é que não perdoas." 


(André Breton - Manifesto do Surrealismo, 1924)






II



A CASA VAZIA OU JARDIM DA INFÂNCIA



na casa vazia,

saciados sejam os desejos da infância

jardins suspensos

florescem no vento

sonhos dispersos
se tocam no tempo

e assim,
nesse exato momento,
façamos caminhos inversos

nos versos
 de Milton,
refazer a estrada

na voz da Fazenda, 
refazer a memória apagada
pelo pó do tempo
e o nada

no viver intenso,
vou ver o que foi
e ainda é

na normalidade do esquecer,

beber sem pensar
até a última gota

quando foi que esse Carro de Boi nos trouxe aqui?


eu que nunca quis partir
de lá, nunca vi o amanhã:
instante já, 
estrada sem volta

à flor da pele explode um grito:

a estrada é nunca mais
e o menino nunca morre!



(poema feito sobre o Lado A de Geraes, de Milton Nascimento. dezembro de 2012)





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