I
"[Ao homem] cabe-lhe uma grande modéstia: sabe quais as
mulheres que teve, em que aventuras risíveis se meteu; a sua riqueza ou a sua
pobreza não lhe servem de nada, nesse aspecto ele continua a ser a criança que
acaba de nascer e, quanto à aprovação da sua consciência moral, admito que
passe sem ela facilmente. Se conservar alguma lucidez, apenas pode virar-se
então para sua infância que, por muito trucidada que tenha sido pela solicitude
dos domadores, nem por isso lhe parece menos cheia de encantos. Nela, a ausência
de qualquer rigor conhecido deixa-lhe a perspectiva de várias vidas vividas ao
mesmo tempo (...).
Mas se na verdade não se pode ir tão longe, não é apenas por
causa da distância.
(...)
Querida imaginação, o que eu amo em ti acima de tudo é que
não perdoas."
(André Breton - Manifesto do Surrealismo, 1924)
II
A CASA VAZIA OU JARDIM DA INFÂNCIA
na casa vazia,
saciados sejam os desejos da infância
jardins suspensos
florescem no vento
sonhos dispersos
se tocam no tempo
e assim,
nesse exato momento,
façamos caminhos inversos
nos versos de Milton,
refazer a estrada
na voz da Fazenda,
refazer a memória apagada
pelo pó do tempo
e o nada
no viver intenso,
vou ver o que foi
e ainda é
na normalidade do esquecer,
beber sem pensar
até a última gota
quando foi que esse Carro de Boi nos trouxe aqui?
eu que nunca quis partir
de lá, nunca vi o amanhã:
instante já,
estrada sem volta
à flor da pele explode um grito:
a estrada é nunca mais
e o menino nunca morre!
(poema feito sobre o Lado A de Geraes, de Milton Nascimento. dezembro de 2012)
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