segunda-feira, 19 de agosto de 2013

TEUS OLHOS



para  Mayara Oliveira
ao som de Glósóli - Sigur Rós


olhos musicais

olhos atemporais:
etéreos

pequeno mar de translúcidos espelhos

glaciais:
arranham-me os ossos;
congelam-me as artérias,
e o sangue se debate lento
na vontade de continuar correndo

o tempo se distrai
se desfaz

as dimensões se misturam
em um lugar de gravidade zero

o corpo flutuante -
que já nem sei se é meu -
tenta segurar as cores
que explodem na palma das mãos
e se transformam em luz:
ofuscante clarão
num universo escuro

seus olhos:
múltiplos em seus quereres,
em seus poderes
                         
poesia imediata,
inexata

impossível.



(agosto, 2013)



quarta-feira, 14 de agosto de 2013

LIMEN




na noite, a cidade acorda:

a quietude desperta
o que o dia dispersa.
o invisível vem à luz
da noite, que o conduz
a caminhos controversos.

na noite, a cidade é outra:

a pedra estilhaça os espelhos
e Narciso se perde entre os cacos:
caleidoscópio de dejetos indesejáveis.

sob a cidade há outra cidade:
fúria de águas represadas
rompendo dutos subterrâneos -
subversão das faces contra as botas.

na noite, a cidade é pó,
é pau, é pedra
quebrando a pétrea rotina
irregular e nada retilínea;
não reprime o que é,
nem o que pode ser.

o asco, o nojo e o lixo
se entrelaçam no abismo
com o sublime

o impossível não existe
na noite
da cidade.


(agosto, 2013)


(Metamorfose de Narciso - Salvador Dali, 1937)




DAS PONTES ENTRE MUNDOS



A LIRA DE ARCOVERDE

[O discoLira  é só uma pequena parte na trajetória do Trovador pernambucano, que entre pouquíssimos no mundo moderno, tem a credencial para assim ser designado.  Lirinha é um desses emissários raros, um contador de histórias e estórias deste e de outros mundos, só possíveis de serem por nós acessados, graças a sua nobre função natural para bardo.
Lira é só uma pequena parte na trajetória de Lirinha. Mas é uma pequena grande parte! Lira é um convite ao lúdico e ao empírico, ao cósmico e ao telúrico, mas principalmente ao lirismo psicodélico. Ouvir o disco é como estar num sonho cheio de simbolismos, daqueles que nos deixam intrigados e perplexos e nos fazem passar o resto do dia atordoados, tentando decifra-los enquanto aguardamos a chegada da nova madrugada esperando que se repitam.
Dissecando Lira
Letras-poemas forjadas a pedras e flores. Nuvens, homículos, damas e valetes, vagalumes e elefantes invisíveis, soldados, flechas, bêbados, névoa, química, hindus, gregos e Buda. Lirinha continua sendo um cordelista!
O som se distancia da proposta caótica do ‘Cordel do Fogo Encantado’, desnudando outras faces do músico. É uma viagem sonora psicodélica experimental, construída com luxuosas participações como Luisa Maita, Pupillo, Junio Barreto, Otto, Ângela RoRo e mais uma plêiade de músicos fodásticos.
Se você era muito fã do Cordel e ainda está preso num sentimento saudosista, desapega!
Lira transcende as expectativas, e a verdade nua e crua é que não tem como não se render e não se deixar arrebatar pelo mundo onírico e sempre encantado de Lirinha.
A imaginação de Lirinha continua em intensa combustão. Tem muita vida, muito fogo pra queimar!
Vida longa ao Rei Trovador de Arcoverde!


- Texto extraído do site 'Jardim da MPB': http://bit.ly/16QCyZH