quarta-feira, 14 de agosto de 2013

LIMEN




na noite, a cidade acorda:

a quietude desperta
o que o dia dispersa.
o invisível vem à luz
da noite, que o conduz
a caminhos controversos.

na noite, a cidade é outra:

a pedra estilhaça os espelhos
e Narciso se perde entre os cacos:
caleidoscópio de dejetos indesejáveis.

sob a cidade há outra cidade:
fúria de águas represadas
rompendo dutos subterrâneos -
subversão das faces contra as botas.

na noite, a cidade é pó,
é pau, é pedra
quebrando a pétrea rotina
irregular e nada retilínea;
não reprime o que é,
nem o que pode ser.

o asco, o nojo e o lixo
se entrelaçam no abismo
com o sublime

o impossível não existe
na noite
da cidade.


(agosto, 2013)


(Metamorfose de Narciso - Salvador Dali, 1937)




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