terça-feira, 19 de maio de 2015
SOBRE ABERTURA DE DIÁLOGO
antes de ler seus versos -
o poeta
ao público -
pela primeira vez
disse:
- esse poema é novo...
(2014)
A DÚVIDA DOS OUTROS
sobre a inteligência dele
não há dúvida,
a dúvida é o uso dela
por ele
(maio, 2015)
quarta-feira, 13 de maio de 2015
PELA PENA DO GÊNIO, O 13 DE MAIO
Crônica de Machado de Assis publicada no jornal Gazeta de
Notícias, em 19 de maio de 1888, seis dias após a abolição da escravatura.
Bons dias!
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum,
depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e
juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por
mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de
alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos.
Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e
quinhentos, e dei um jantar.
Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta
de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem
trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.
No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha
língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as
idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu
escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas
idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus,
que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão,
e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho)
pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que
acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz
outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços
comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais
nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato,
e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara
franqueza:
– Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga,
já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…
– Oh! meu senhô! fico.
– …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste
mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste
tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro
dedos…
– Artura não qué dizê nada, não, senhô…
– Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em
grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
– Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares
bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia
seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu
expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o
direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle continuava livre, eu de
mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe
despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta
quando lhe não chamo filho do diabo; cousas tôdas que êle recebe humildemente,
e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que
mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal,
já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a
tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse escravo tendo aprendido a ler,
escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio
das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são
os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és
livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e
incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.
Boas noites.
Texto extraído do livro Assis, Machado de. Obra Completa, Vol
III. 3ª edição. José Aguilar, Rio de Janeiro. 1973. p. 489 – 491.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
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