sábado, 24 de novembro de 2012

O FIM DA INFÂNCIA





Não, o assunto aqui não é Arthur C. Clarke e seu maravilhoso livro O fim da infância. Tampouco algo relacionado ao universo da ficção científica – pelo menos não necessariamente. O tema deste texto perpassa questões como problemas edipianos, viagens lisérgicas, psicoses, transgressões, buscas (do tempo perdido inclusive), Gaia, completude, solitude, perda do lugar transcendental... O assunto é Syd Barrett, o gênio perturbado.

Durante muito tempo, sempre que me perguntavam se eu gostava de Pink Floyd, eu respondia: “não, gosto de Syd Barrett”. Para ser sincero nunca entendi bem a dimensão de tal resposta. Afinal, eu gostava de Pink Floyd, “Dark Side of The Moon” era (e é) um de meus discos favoritos, mas me sentia tentado a dar tal resposta. Talvez pela dimensão mítica que ele alcançou. Nunca encontrei alguém indiferente a ele – de uma maneira ou de outra, todos se sentem atraídos por ele, por seu encanto. Syd Barret se tornou (quase) um consenso.

Simon Reynolds (crítico musical inglês que acompanha de perto o desenvolvimento da música pop desde os anos 1980) publicou um texto, em 1995, chamado "O fim da infância", sobre o ressurgimento da psicodelia e de suas temáticas - nas raves e nas ideias das bandas de Shoegaze - na passagem dos anos 80 para os anos 90. Na primeira parte desse texto, ele aponta algumas das características fundamentais da "primeira fase" do Pink Floyd: o que invariavelmente nos conduz ao universo surreal de Syd. 

Reproduzo aqui a parte do texto citada. Leitura bastante válida para os interessados em Pink Floyd e suas psicodelias. 


 [1] “O Pink Floyd foi um dos grupos que definiu a psicodelia – tanto musical (com seu fluxo sonoro caleidoscópico) como tematicamente (com sua obsessão pelo “fim da infância” e seu pastoralismo). O cantor e líder original do Pink Floyd, Syd Barrett, foi uma figura-chave na passagem dos vocalistas machões do R&B para as figuras andróginas à Peter Pan da psicodelia. Barrett certamente se encaixa no perfil de filhinho da mamãe. Seu pai morreu quando ele tinha 14 anos, e a partir daí ele desenvolveu uma relação próxima com a mãe. (Convém lembrar que Roger Water, a outra figura-chave do Pink Floyd, perdeu o pai pouco depois de nascer e também ficou sob o poder de uma mãe controladora). Num tributo feito pela NME em 1974, Nick Kent especulou que a instabilidade mental de Barrett estava relacionada a fatores edipianos sinistros. Tomar quantidades descomunais de LSD lançou Barrett num colapso psicótico; ele deixou o Floyd e voltou a morar com a mãe, para sempre...

Tudo isso pode explicar a idealização da infância característica do Pink Floyd da era Barrett. Um de seus singles, “See Emily Play” (1967), é uma visão casta e arrebatadora de flutuar num rio para sempre; a entonação excêntrica, de rima infantil, é uma ruptura surpreendente com a voz rouca e máscula do blues branco. O álbum de estreia, The Piper at the Gates of Dawn (1967), pegou seu título do sétimo capitulo do clássico infantil O vento nos Salgueiros, [de Kenneth Grahame]. Em “Matilda Mother”, Barrett é uma criança implorando para que a mãe leia mais um capítulo de seu conto de fadas favorito na hora de dormir. A voz da mãe transforma as “linhas rabiscadas” em mágica, destrancando a porta de um místico país das maravilhas onde “tudo brilha”. Crianças ficam nostálgicas numa idade surpreendentemente jovem: suas fantasias dos “dias de antigamente” escondem uma vontade de voltar àquele fantástico não-lugar de onde todos fomos expulsos pelo princípio da realidade. Assim, Barrett renuncia ao realismo e anseia por contos de fadas. Em “Flaming”, faz o papel de um espírito ou ninfa do bosque, uma criatura invisível, com poderes mágicos de teletransporte. No restante do álbum, há um sonho de amor puro, não maculado pela sexualidade, como em “Bike”, onde Barrett, com a generosidade ilimitada de uma criança, oferece a seu doce amor “qualquer coisa, todas as coisas”, e faz amizade com um camundongo chamado Gerald.



No segundo álbum, A Saucerful of Secret (1968), Barret já estava praticamente fora do grupo, mas o Pink Floyd era ainda moldado por sua visão. “Remenber a Day”, de Rick Wright, é pura saudade da paz entorpecida da infância, com seu tranquilo espírito brincalhão. Em “See-saw” , irmão e irmã divertem-se felizes, sem nenhuma preocupação ou pensamento no amanhã. Syd Barrett seguiu nesse veio entre o piegas e o psicótico, o sentimentalóide e o doentio, por toda a sua errática carreira solo. Seus álbuns de 1970, The Madcap Laughs e Barret, são cheios de canções de amor infantis e castas, cheias de mel, creme de leite e “Baby Lemonade”; o amor aqui está mais próximo da fantasia infantil de ser dono de uma loja de doces do que do aspecto carnal do desejo adulto.

Sem Barrett, o Pink Floyd rumou em direção a uma serenidade desprovida de problemas. O controlador Roger Waters mudou a orientação da banda, conduzindo-a da serenidade dionisíaca de barrett rumo a uma placidez apolínea (todas aquelas músicas com complexo de Ícaro, como “Set the Controls for the Heart of the Sun” e “Let There Be More Light”). Antes um fluxo caótico, o som do Pink Floyd agora estava mais próximo de uma catedral: algo que inspira reverencia, mas de forma ordeira. A nostalgia, porém, ainda era a emoção dominante. Em Ummagumma (1969), “Grantchester Meadows” retorna ao infinito oásis da infância. Os vocais pálidos e cuidadosos de Waters e uma guitarra acústica sinuosa se misturam ao som de cotovias cantando, patos fazendo barulho na água e o zumbido de abelhas. Ele está na cidade, mas está se “aconchegando” na memória daquela “tarde passada”, quando deitou no pasto quentinho, ao lado de um rio.

Os temas pastorais do Pink Floyd desabrocham em Atom Heart Mother (1970), com a famosa capa onde uma vaca pasta placidamente. O título saiu de uma manchete de jornal sobre uma mãe grávida a quem dado um marca-passo movido à energia atômica; o baterista Nick Mason explicou que a capa explorava a conexão “entre a vaca e... a mãe-Terra, o coração da Terra”. O álbum em si seguia esse simbolismo bem pomposo: todo o primeiro lado era ocupado por “Atom Heart Mother Suite”, uma espécie de sinfonia de regressão cósmica. “Fat Old Sun” é pura indolência opulenta cozida pelo sol, com tons sépia de arrependimento, enquanto a tarde de verão dá lugar ao anoitecer; as letras evocam o cheiro da grama, sinos de igreja badalando ao longe, o riso de crianças flutuando na brisa”.




- [1]Trecho extraído do livro "Beijar o céu", coletânea de textos de Simon Reynolds publicado pela Conrad.

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