Não, o assunto aqui não é Arthur
C. Clarke e seu maravilhoso livro O fim da infância. Tampouco algo relacionado ao universo da
ficção científica – pelo menos não necessariamente. O tema deste texto perpassa
questões como problemas edipianos, viagens lisérgicas,
psicoses, transgressões, buscas (do tempo perdido inclusive), Gaia,
completude, solitude, perda do lugar transcendental... O assunto é Syd Barrett, o gênio perturbado.
Durante muito tempo, sempre que
me perguntavam se eu gostava de Pink Floyd, eu respondia: “não, gosto de Syd
Barrett”. Para ser sincero nunca entendi bem a dimensão de tal resposta. Afinal, eu gostava de Pink Floyd, “Dark Side of The Moon” era (e é) um de meus
discos favoritos, mas me sentia tentado a dar tal resposta. Talvez pela
dimensão mítica que ele alcançou. Nunca encontrei alguém indiferente a ele – de
uma maneira ou de outra, todos se sentem atraídos por ele, por
seu encanto. Syd Barret se tornou
(quase) um consenso.
Simon Reynolds (crítico musical
inglês que acompanha de perto o desenvolvimento da música pop desde os anos 1980) publicou um texto, em 1995, chamado "O fim da infância", sobre o ressurgimento da psicodelia e de suas temáticas - nas raves e nas ideias das bandas de Shoegaze - na passagem dos anos 80 para os anos 90. Na primeira parte desse texto, ele aponta algumas das características fundamentais
da "primeira fase" do Pink Floyd: o que invariavelmente nos conduz ao universo surreal de Syd.
Reproduzo aqui a parte do texto citada. Leitura bastante válida para os interessados em Pink Floyd e suas psicodelias.
Reproduzo aqui a parte do texto citada. Leitura bastante válida para os interessados em Pink Floyd e suas psicodelias.
[1] “O Pink Floyd foi um dos grupos que definiu a
psicodelia – tanto musical (com seu fluxo sonoro caleidoscópico) como
tematicamente (com sua obsessão pelo “fim da infância” e seu pastoralismo). O
cantor e líder original do Pink Floyd, Syd Barrett, foi uma figura-chave na
passagem dos vocalistas machões do R&B para as figuras andróginas à Peter
Pan da psicodelia. Barrett certamente se encaixa no perfil de filhinho da
mamãe. Seu pai morreu quando ele tinha 14 anos, e a partir daí ele desenvolveu
uma relação próxima com a mãe. (Convém lembrar que Roger Water, a outra
figura-chave do Pink Floyd, perdeu o pai pouco depois de nascer e também ficou
sob o poder de uma mãe controladora). Num tributo feito pela NME em 1974, Nick Kent especulou que a
instabilidade mental de Barrett estava relacionada a fatores edipianos
sinistros. Tomar quantidades descomunais de LSD lançou Barrett num colapso
psicótico; ele deixou o Floyd e voltou a morar com a mãe, para sempre...
Tudo isso pode explicar a
idealização da infância característica do Pink Floyd da era Barrett. Um de seus
singles, “See Emily Play” (1967), é uma visão casta e arrebatadora de flutuar
num rio para sempre; a entonação excêntrica, de rima infantil, é uma ruptura
surpreendente com a voz rouca e máscula do blues branco. O álbum de estreia, The Piper at the Gates of Dawn (1967),
pegou seu título do sétimo capitulo do clássico infantil O vento nos Salgueiros, [de Kenneth Grahame]. Em “Matilda Mother”,
Barrett é uma criança implorando para que a mãe leia mais um capítulo de seu
conto de fadas favorito na hora de dormir. A voz da mãe transforma as “linhas
rabiscadas” em mágica, destrancando a porta de um místico país das maravilhas
onde “tudo brilha”. Crianças ficam nostálgicas numa idade surpreendentemente
jovem: suas fantasias dos “dias de antigamente” escondem uma vontade de voltar
àquele fantástico não-lugar de onde todos fomos expulsos pelo princípio da
realidade. Assim, Barrett renuncia ao realismo e anseia por contos de fadas. Em
“Flaming”, faz o papel de um espírito ou ninfa do bosque, uma criatura
invisível, com poderes mágicos de teletransporte. No restante do álbum, há um
sonho de amor puro, não maculado pela sexualidade, como em “Bike”, onde
Barrett, com a generosidade ilimitada de uma criança, oferece a seu doce amor
“qualquer coisa, todas as coisas”, e faz amizade com um camundongo chamado
Gerald.
No segundo álbum, A Saucerful of Secret (1968), Barret já
estava praticamente fora do grupo, mas o Pink Floyd era ainda moldado por sua
visão. “Remenber a Day”, de Rick Wright, é pura saudade da paz entorpecida da
infância, com seu tranquilo espírito brincalhão. Em “See-saw” , irmão e irmã
divertem-se felizes, sem nenhuma preocupação ou pensamento no amanhã. Syd
Barrett seguiu nesse veio entre o piegas e o psicótico, o sentimentalóide e o
doentio, por toda a sua errática carreira solo. Seus álbuns de 1970, The Madcap Laughs e Barret, são cheios de canções de amor infantis e castas, cheias de
mel, creme de leite e “Baby Lemonade”; o amor aqui está mais próximo da
fantasia infantil de ser dono de uma loja de doces do que do aspecto carnal do
desejo adulto.
Sem Barrett, o Pink Floyd rumou
em direção a uma serenidade desprovida de problemas. O controlador Roger Waters
mudou a orientação da banda, conduzindo-a da serenidade dionisíaca de barrett
rumo a uma placidez apolínea (todas aquelas músicas com complexo de Ícaro, como
“Set the Controls for the Heart of the Sun” e “Let There Be More Light”). Antes
um fluxo caótico, o som do Pink Floyd agora estava mais próximo de uma
catedral: algo que inspira reverencia, mas de forma ordeira. A nostalgia,
porém, ainda era a emoção dominante. Em Ummagumma (1969), “Grantchester
Meadows” retorna ao infinito oásis da infância. Os vocais pálidos e cuidadosos
de Waters e uma guitarra acústica sinuosa se misturam ao som de cotovias
cantando, patos fazendo barulho na água e o zumbido de abelhas. Ele está na
cidade, mas está se “aconchegando” na memória daquela “tarde passada”, quando deitou
no pasto quentinho, ao lado de um rio.
Os
temas pastorais do Pink Floyd desabrocham em Atom Heart Mother (1970), com a famosa capa onde uma vaca pasta
placidamente. O título saiu de uma manchete de jornal sobre uma mãe grávida a
quem dado um marca-passo movido à energia atômica; o baterista Nick Mason
explicou que a capa explorava a conexão “entre a vaca e... a mãe-Terra, o
coração da Terra”. O álbum em si seguia esse simbolismo bem pomposo: todo o
primeiro lado era ocupado por “Atom Heart Mother Suite”, uma espécie de
sinfonia de regressão cósmica. “Fat Old Sun” é pura indolência opulenta cozida
pelo sol, com tons sépia de arrependimento, enquanto a tarde de verão dá lugar
ao anoitecer; as letras evocam o cheiro da grama, sinos de igreja badalando ao longe,
o riso de crianças flutuando na brisa”.
- [1]Trecho extraído do livro "Beijar o céu", coletânea de textos de Simon Reynolds publicado pela Conrad.


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